Eixo clínico
Cuidar de quem cuidou, sem deixar de cuidar de si.
Falar com a Gisele →O que a clínica trabalha
Em consultório, o eixo do envelhecimento aparece em dois movimentos que costumam acontecer simultaneamente. De um lado, o adulto que envelhece, e que tem que reorganizar autoimagem, expectativas profissionais, projeto de vida, em um corpo que muda, em uma sociedade que ainda confunde envelhecer com adoecer. Por outro lado, o adulto que cuida de pais idosos, vivendo a inversão de papéis e o luto de quem ainda está vivo.
A literatura clínica chama esse segundo grupo de geração-sanduíche: pessoas entre os 40 e os 60 anos, cuidando ao mesmo tempo de pais em declínio e de filhos ainda dependentes. Sandwich generation é termo cunhado por Dorothy Miller em 1981, e descreve a experiência hoje massiva no Brasil: onde a expectativa de vida cresceu, a maternidade tardia se tornou padrão e a rede pública de cuidados de longa permanência é insuficiente.
Em consultório, o que mais frequentemente chega como demanda da geração-sanduíche não é o cansaço, esse é apenas o sintoma de superfície. Chegam a culpa por sentir alívio em finais de semana sem visita ao asilo, raiva pela falta de divisão de cuidado entre irmãos, ressentimento por escolhas de cuidado que viraram exigência sem consulta, e um luto que opera em segundo plano: o luto antecipatório de pais que ainda estão vivos mas que já não são quem foram.
Há também a situação em que o ente querido está fisicamente presente mas psicologicamente ausente, como em quadros avançados de demências. Trata-se de um processo de difícil elaboração, pois a perda não tem marco, não tem rito, não tem permissão social para ser nomeada como tal. Em paralelo, o cuidador segue sendo cobrado de presença, de paciência, de afeto que não recebe retorno.
E há, do lado de quem envelhece, o trabalho psíquico de reorganizar identidade após eventos como aposentadoria, redução cognitiva inicial, mudança no corpo, viuvez, ninho vazio. A literatura clínica trata aposentadoria como evento psíquico real, não só transição administrativa. A perda de papel social precisa ser elaborada, sob risco de depressão reativa instalar-se nos primeiros 24 meses pós-aposentadoria.
Trabalho a partir da experiência acumulada em mais de quinze anos de prática hospitalar e clínica, com forte vivência em cuidados paliativos junto a famílias atravessando declínio prolongado. O que ofereço é escuta clínica para quem está cuidando, ou para quem está envelhecendo, ou para quem está fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.
Como aparece em consultório
Chega ao consultório uma mulher de cinquenta e poucos anos. O pai tem Alzheimer há quatro anos, em estágio moderado. A mãe morreu cedo, então a responsabilidade do cuidado coube principalmente a ela, apesar de ter dois irmãos. Tem dois filhos adolescentes, marido com quem está em distanciamento, trabalho exigente. Sente-se permanentemente atrasada em tudo. Nos finais de semana em que não vai visitar o pai, se sente aliviada por algumas horas e depois entra em culpa profunda. Acordou achando que o pai a chamou pelo nome ontem, e não sabe se foi alegria ou desespero.
O que a clínica nomeia, em algum momento dos primeiros encontros, é que ela vive a sobreposição clássica de geração-sanduíche e um luto ainda não nomeado, sem ter espaço para reconhecer nenhuma dessas camadas. A culpa não é traço de caráter, é sintoma de quadro com nome próprio. O alívio que ela sente não é falta de amor, é resposta normal à exaustão crônica. A psicoterapia oferece o espaço para que cada camada possa ser nomeada, e para que ela possa redistribuir cuidado sem se exaurir até o ponto em que ela mesma adoece.
Este é um relato ficcional ilustrativo, baseado em literatura clínica, que não corresponde a paciente real.
Quem chega à clínica
Algumas configurações que aparecem com frequência em consultório:
Para ler a respeito
Outros eixos clínicos
Atendimento em envelhecimento
Gisele Gonçalves Dias · CRP 06/93874