Eixo clínico

Adoecimento e Cuidado Emocional

Quando o corpo adoece, a identidade renegocia.

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O que a clínica trabalha

Receber um diagnóstico grave não é “só ansiedade”. É um evento psíquico de outra ordem.

Câncer, doença autoimune crônica, doença neurodegenerativa, condição que muda a vida. Receber um diagnóstico assim é evento psíquico de ordem distinta. A literatura clínica chama de choque diagnóstico: uma resposta específica ao reconhecimento de que a vida que se imaginava acabou de ser revisada, sem aviso, sem licença, sem possibilidade de voltar ao ponto anterior.

Mais de quinze anos de prática hospitalar e clínica; em UTI, oncologia, cuidados paliativos, reabilitação e longa permanência, me ensinaram que o momento do diagnóstico define muito do que vem depois, e é também o momento em que a clínica psicológica costuma ser mais precisa e menos invocada. Quando paciente e família chegam ao consultório semanas ou meses depois, frequentemente já há depressão reativa instalada, sono comprometido, conflito conjugal, dificuldades práticas de adesão ao tratamento. Tudo isso era manejável se a escuta tivesse começado antes.

Em consultório, trabalho com algumas configurações que aparecem com frequência ao longo do adoecimento. Cansaço do tratamento (treatment fatigue): o esgotamento do tratamento prolongado que ninguém valida, especialmente em doenças crônicas autoimunes ou em quimioterapias longas. Ansiedade pré-exame (scanxiety): a ansiedade que sobe nas semanas que antecedem cada exame de seguimento em remissão, recorrente e exaustiva. Identidade pós-doença: o desafio de reorganizar a vida em torno de um corpo que mudou, sem deixar a doença virar o organizador único da experiência.

Há também o luto da remissão: fenômeno descrito na literatura de sobreviventes oncológicos. Alívio quando o exame vem bom, seguido de tristeza por reconhecer que o próximo virá. É luto pela vida que não é mais de quem nunca esteve doente. Material clínico legítimo, com elaboração possível em terapia.

E há o positivismo tóxico: a pressão social por estar bem, por reagir, por “vencer a doença”. Essa pressão faz parte do que adoece o paciente em paralelo ao diagnóstico médico. A clínica oferece o oposto: espaço para sentir o que precisa ser sentido, sem prescrição de coragem.

Trabalho a partir de Maria Helena Pereira Franco, Maria Julia Kovács, Atul Gawande, Arthur Frank e da experiência hospitalar acumulada. O que ofereço é escuta clínica para quem está atravessando adoecimento: paciente, familiares e/ou cuidadores.

Como aparece em consultório

Um relato típico, em formato amálgama.

Chega ao consultório uma mulher de quarenta e poucos anos, três anos após o diagnóstico de câncer de mama, dois em remissão. Tecnicamente, está bem. As coisas voltaram ao ritmo. Mas a cada três meses, nas duas semanas antes do exame de seguimento, a vida desorganiza por completo: ela não dorme, fica irritada com os filhos, perde a paciência no trabalho, sente sintomas físicos que reproduzem o quadro original. Nos dias depois do laudo bom, alívio breve seguido de tristeza inexplicada.

O que a clínica nomeia, em algum momento dos primeiros encontros, é que ela vive em ciclos de ansiedade pré-exame não tratada e em luto da remissão ainda não elaborado. Não está exagerando. Não está sendo ingrata pela cura. Está atravessando um quadro com nome próprio, mecânica conhecida e técnica clínica disponível. A psicoterapia organiza o que estava difuso e devolve o intervalo entre exames como tempo de viver, não só de esperar.

Este é um relato ficcional ilustrativo, baseado em literatura clínica, que não corresponde a paciente real.

Quem chega à clínica

Demandas de adoecimento que a escuta sustenta.

Algumas configurações que aparecem com frequência em consultório:

  • Pessoas em choque diagnóstico recente: câncer, doença autoimune, condição neurológica grave, buscando suporte para a fase aguda.
  • Pacientes em remissão vivendo ansiedade pré-exame (scanxiety) recorrente nos exames de seguimento, frequentemente com prejuízo importante de qualidade de vida.
  • Pacientes em tratamento longo (quimioterapia, imunossupressão, hemodiálise) com cansaço do tratamento (treatment fatigue) e queda de adesão.
  • Pessoas com doenças crônicas de dor invisível (fibromialgia, lupus, fadiga crônica, doenças autoimunes) cuja experiência é frequentemente invalidada.
  • Pacientes que precisam reorganizar identidade após mudança corporal significativa: pós-cirúrgica, pós-AVC, pós-infarto, pós-mastectomia.
  • Familiares de pacientes em adoecimento prolongado, vivendo a sobrecarga do cuidado, culpa e luto antecipatório.
  • Profissionais de saúde com fadiga por compaixão, específica de exposição contínua e prolongada ao sofrimento dos pacientes e seus familiares, cujo desejo de ajudar excede a sua capacidade de lidar com a dor.
  • Pessoas em luto da remissão: sobreviventes que precisam elaborar a vida que continua depois da doença.
Em situações de crise, busque profissional habilitado ou o CVV pelo 188 (24 horas, ligação gratuita) ou em cvv.org.br.

Outros eixos clínicos

A clínica trabalha em seis territórios.

Atendimento em adoecimento

Para quem precisa atravessar o diagnóstico, o tratamento ou a remissão com escuta clínica de qualidade.

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Gisele Gonçalves Dias · CRP 06/93874